Equipe cirúrgica realizando HIPEC em câncer colorretal em sala de cirurgia moderna
✨ Resuma este artigo com IA

Quando penso na evolução do tratamento do câncer colorretal, principalmente nos casos patológicos T4, uma das questões mais relevantes é a recidiva peritoneal. Mesmo após cirurgias consideradas curativas, vejo taxas preocupantes de recidiva na cavidade peritoneal, que variam entre 15% e 25%, conforme descrito em revisões e publicações recentes (dados sobre o impacto do câncer colorretal no Brasil). O câncer colorretal é hoje uma das neoplasias que mais preocupa os especialistas, não apenas por sua incidência, mas pelo desafio clínico representado pelas formas localmente avançadas.

Panorama: câncer colorretal pT4 e o desafio da recidiva peritoneal

Segundo projeções do Instituto Nacional de Câncer, esperamos um aumento significativo dos casos nos próximos anos, tornando ainda mais urgente a discussão sobre estratégias para melhorar o prognóstico dos pacientes (tendências e estratégias preventivas).

Mesmo após cirurgia curativa, a chance de recidiva não pode ser ignorada.

Casos com invasão peritoneal, ou seja, aqueles classificados como pT4, são particularmente complexos. A barreira peritônio-plasma limita a circulação dos quimioterápicos sistêmicos, favorecendo o surgimento de implantes microscópicos, conhecidos como células tumorais livres, que podem evoluir para recidiva localizada.

O racional para o uso da HIPEC precoce

É nesse contexto que a quimioterapia hipertérmica intraperitoneal (HIPEC) ganha destaque. Eu vejo a HIPEC precoce, realizada após a ressecção do tumor, como uma alternativa lógica: permite que o quimioterápico atue diretamente sobre áreas potencialmente contaminadas por células neoplásicas antes da formação de aderências, maximizando o efeito citotóxico.

  • Supera a limitação da barreira peritônio-plasma
  • Distribuição direta da droga sobre o leito cirúrgico
  • Janela pós-operatória: melhor acesso a IFCCs (implantes livres)
  • Hipertermia amplifica o poder do quimioterápico
  • Circulação contínua assegura exposição uniforme

O protocolo mais estudado envolve uso de 5-fluorouracil a 43°C, durante 60 minutos, imediatamente após a ressecção.

O estudo de coorte: desenho, pacientes e método

Para compreender o real impacto da HIPEC precoce, destaco um estudo de coorte retrospectivo conduzido em um único centro, no qual 690 pacientes com adenocarcinoma colorretal pT4 foram avaliados entre 2018 e 2022. Entre eles, 471 preencheram os critérios de inclusão: 155 receberam HIPEC profilática e 316 seguiram apenas com a cirurgia padrão.

Após pareamento por escore de propensão (1:2), restaram 99 pacientes no grupo HIPEC e 198 no grupo não-HIPEC. Esse tipo de análise visa equilibrar características entre os grupos, tentando reduzir vieses comuns em estudos não randomizados.

Características da HIPEC utilizada

  • 5-fluorouracil na dose de 650mg/m²
  • Temperatura de 43°C
  • Duração de 60 minutos
  • Aplicação profilática até 7 dias após cirurgia

Esse método de preparo é similar ao já discutido em outros cenários da cirurgia oncológica e integra estratégias regionais de controle local da doença.

Desfechos avaliados: qual foi o impacto real?

O critério principal avaliado foi a sobrevida livre de doença (DFS), enquanto sobrevida global (OS) e localizações das recorrências foram considerados desfechos secundários. Eu considero fundamental analisar de forma separada não só o tempo sem recidiva, mas também onde essas recidivas ocorreram, para oferecer um aconselhamento realista ao paciente.

Principais achados

  • DFS: não houve diferença estatística pelas curvas de Kaplan–Meier (p=0,074), mas na análise multivariada de Cox ajustada, HIPEC associou-se a melhor DFS (HR 0,58; IC95% 0,38–0,88; p=0,012)
  • OS: sem benefício significativo (HR 0,72; IC95% 0,41–1,24; p=0,237)
  • Taxa de recorrência peritoneal: 11,1% (HIPEC) vs 14,1% (sem HIPEC)
  • Recorrência hepática: 18,2% vs 24,2%
  • Recorrência pulmonar: 10,1% vs 15,7%
  • Recorrências em outros sítios: 5,1% (HIPEC) vs 13,1% (p=0,032)

Esses números deixam claro que, embora HIPEC não tenha mudado drasticamente o risco de recidiva peritoneal em relação à cirurgia isolada, houve impacto nas recorrências em outros sítios e na DFS ajustada. Muitas vezes, criar a expectativa correta junto ao paciente depende de apresentar todos esses detalhes.

Quais subgrupos se beneficiaram mais?

No estudo, percebi que os melhores resultados de DFS foram observados nos seguintes subgrupos:

  • Pacientes com menos de 60 anos (HR 0,45; p=0,017)
  • Tumores localizados no cólon esquerdo (HR 0,37; p=0,014)

É interessante notar que não houve interação significativa entre tratamento e outras variáveis de subgrupo, sugerindo benefício mais restrito a certas condições clínicas e tumorais.

O racional mecanicista: por que HIPEC pode funcionar?

No meu entendimento, o potencial da HIPEC está em superar as limitações farmacocinéticas do peritônio, facilitar efeito citotóxico após ressecção e antes de aderências, e maximizar a exposição local graças à combinação de hipertermia e circulação contínua do agente quimioterápico.

  • Distribuição homogênea do fármaco
  • Penetração direta nas áreas suscetíveis
  • Potencial incremento de citotoxicidade pela hipertermia

Limitações e pontos de atenção

Refletindo sobre a aplicação desses achados, é preciso destacar algumas limitações importantes:

  • Desenho retrospectivo de centro único
  • Ausência de avaliação por citologia peritoneal
  • Possíveis confundidores, mesmo após ajuste por escore de propensão
  • Heterogeneidade no uso de HIPEC adicional dentro do grupo
  • Não houve avaliação formal do impacto de terapias-alvo ou imunoterapias
  • Limitação do poder estatístico para detecção de efeito em OS
  • Dificuldade para generalizar para outros centros ou protocolos

A literatura recente reforça essas ressalvas, sugerindo que a decisão pelo uso da HIPEC deve ser cuidadosamente individualizada. Para quem quer se aprofundar nos detalhes técnicos da cirurgia oncológica, recomendo a categoria de oncologia.

Como eu vejo a HIPEC precoce na prática atual?

A HIPEC após ressecção cirúrgica de câncer colorretal pT4 pode reduzir o risco de recorrência e melhorar a sobrevida livre de doença, particularmente em pacientes mais jovens e com tumores do cólon esquerdo. No entanto, não há garantia de aumento de sobrevida global no período de acompanhamento analisado.

Cada paciente merece uma análise personalizada, com diálogo claro sobre limitações e benefícios.

Todos esses aspectos reforçam a importância do cuidado multidisciplinar, envolvendo equipes de oncologia clínica, cirurgia, patologia e radiologia, tema que também se encontra em discussão em materiais sobre multidisciplinaridade.

Conclusão

O câncer colorretal pT4 continua sendo um desafio para os profissionais e para os pacientes. A HIPEC precoce surge como alternativa para melhorar o controle da doença, com respostas mais robustas na DFS ajustada do que na sobrevida global, e destaca-se para subgrupos específicos como aqueles com menos de 60 anos ou tumores no cólon esquerdo.

Ao individualizar as indicações, orientar bem o paciente e integrar o cuidado com foco multidisciplinar, temos a chance de oferecer não só tecnologia avançada, mas também decisões bem fundamentadas. Para aprofundar aspectos técnicos, recomendo a leitura de conteúdos sobre tratamento oncológico e alternativas cirúrgicas detalhadas, como em cirurgia CRS e HIPEC.

Para prevenção, manutenção da saúde e rastreamento, reforce sempre o papel da colonoscopia e dos hábitos saudáveis, conforme destacado pelas recomendações de programas de rastreamento e prevenção do câncer colorretal.

Compartilhe este artigo

Quer saber mais sobre cirurgia oncológica?

Descubra como o acompanhamento especializado pode transformar o tratamento do câncer. Saiba mais sobre nossa abordagem.

Agende uma Consulta
Dayara Sales Scheidt

Sobre o Autor

Dayara Sales Scheidt

Médica especialista em cirurgia oncológica, atuando no diagnóstico, tratamento cirúrgico e acompanhamento de pacientes com câncer. Seu trabalho envolve integração com equipes multidisciplinares, buscando sempre promover o melhor cuidado ao paciente em todas as fases do tratamento oncológico. Interessada em avanços médicos e novas abordagens terapêuticas, dedica-se ao contínuo aprimoramento de técnicas cirúrgicas e práticas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes oncológicos.

Posts Recomendados