Quando penso no papel do cirurgião oncológico, vejo um percurso intenso, que começa no diagnóstico e só termina no seguimento do paciente. Cada etapa é diferente, e a integração das equipes faz toda a diferença para oferecer o que há de melhor aos pacientes. Vou contar como vejo, na prática, esse caminho – não apenas pelo estudo, mas pela experiência no dia a dia.
Primeiros passos: suspeita e avaliação clínica
Muitas vezes, o início de tudo está em uma queixa aparentemente comum. É nessa consulta inicial que busco detalhes sobre sintomas persistentes, alterações súbitas e fatores de risco. Avalio história clínica e examino o paciente de forma minuciosa. Às vezes, aquele pequeno dado no exame físico muda todo o rumo.
Para investigar, costumo solicitar exames laboratoriais, de imagem e, em alguns casos, endoscopias, direcionando a investigação conforme o provável sítio do tumor. Essa fase é desafiadora: preciso equilibrar ansiedade do paciente e rigor técnico. Nada substitui a escuta atenta e o exame físico detalhado. Quando o quadro sugere tumor, a indicação de biópsia é feita rapidamente. É, muitas vezes, um momento de virada, em que dúvidas dão lugar à busca por respostas.
Diagnóstico histopatológico: confirmação e precisão
Receber um diagnóstico definitivo, para qualquer paciente, é um choque. Para mim, como cirurgiã, é o ponto de partida seguro. Após a coleta do material – seja por biópsias guiadas, excisionais ou frações de massa tumoral – aguardo atento o laudo do patologista. Cada linha do laudo é avaliada com cuidado, pois define estadiamento, agressividade e opções futuras.
Alguns casos pedem testes moleculares e imuno-histoquímicos, para ampliar o conhecimento sobre o tumor e guiar as decisões, principalmente em neoplasias com terapias-alvo. Confirmar o diagnóstico significa alinhar expectativas e começar a planejar com objetividade.
Planejamento: escolha do melhor caminho cirúrgico
Cada paciente é único, então levo em conta aspectos como localização do tumor, extensão, condições clínicas e preferências. O estadiamento, que pode envolver mais exames de imagem ou até procedimentos exploratórios, é essencial nessa decisão.
Costumo participar de reuniões multidisciplinares, conhecidas como tumor boards, onde discuto os casos com colegas oncologistas clínicos, radioterapeutas, radiologistas e patologistas. Nessas reuniões, cada ponto de vista conta na busca pela melhor estratégia. Posso afirmar que a soma de olhares resulta em decisões mais seguras.
Planejar é pensar em cada detalhe antes do primeiro corte.
Quando os riscos superam benefícios, opto por outras terapias, ajustando sempre conforme a evolução clínica.
Execução: técnicas e tipos de cirurgia oncológica
Na sala de cirurgia, concentro toda a experiência adquirida. Meu objetivo é remover o tumor com margens de segurança e, se indicado, realizar a linfadenectomia para aumentar as chances de erradicação.
Em certos quadros, faço procedimentos citorredutores ou cirurgias associadas a terapias locorregionais, como HIPEC (quimioterapia hipertérmica intra-operatória) ou perfusões regionais.
Não posso deixar de mencionar o impacto das técnicas minimamente invasivas. Sempre que possível, lanço mão da laparoscopia ou da cirurgia robótica. O pós-operatório tende a ser menos doloroso e mais rápido, sem perder resultados oncológicos.
Há situações em que a cirurgia tem finalidade paliativa, visando aliviar sintomas como sangramentos, obstruções ou dor. Nessas horas, o cuidado é ainda mais individualizado. Saber até onde ir é parte do aprendizado.
Para entender mais, aprofundei o tema em um conteúdo sobre cirurgia oncológica.
Recuperação e pós-operatório: cuidados e desafios
No pós-operatório, passo a monitorar não só sinais vitais, mas também o impacto emocional do procedimento. Oriento pacientes e famílias sobre cuidados com drenagens, alimentação, movimentação precoce e sinais de alerta para intercorrências.
Complicações podem acontecer: infecções, fístulas, deiscências. Se ocorrem, ajo rápido, buscando sempre minimizar riscos e acelerar a recuperação. O pós-operatório exige vigilância constante e muita comunicação.
A experiência mostra que as orientações e o suporte fazem diferença nesse período delicado. Para quem quiser se aprofundar sobre o tema, compartilhei dicas em cuidados e orientações no pós-operatório oncológico.
Seguimento: monitoramento contínuo
Depois do pós-operatório imediato, inicia-se uma etapa igualmente importante: o seguimento. Protocolos de acompanhamento definidos conforme o tipo de tumor, o tratamento realizado e fatores pessoais do paciente. O objetivo é identificar rapidamente recidivas e tratar precocemente eventuais complicações.
Durante o seguimento, busco conversar sobre qualidade de vida, retomada de atividades e apoio emocional. O medo da recorrência é real, por isso, sempre recomendo atenção aos sinais de alerta para saúde oncológica.
- Exames periódicos, definidos individualmente
- Orientação sobre sintomas que devem ser comunicados de imediato
- Acompanhamento psicológico e nutricional, quando necessário
- Estímulo à retomada gradual do bem-estar físico e social
Esses pontos tornam a jornada mais leve e segura, pois o paciente compreende seu papel no próprio cuidado. Quando surgem dúvidas quanto ao diagnóstico de recorrências ou novos sintomas, oriento a leitura do conteúdo sobre sinais de alerta para diagnóstico cirúrgico oncológico.
Integração terapêutica e abordagem multidisciplinar
Um aspecto fundamental na minha rotina é integrar a abordagem cirúrgica com demais modalidades, como quimioterapia, radioterapia, imunoterapia e terapias-alvo. Isso é possível através de reuniões frequentes entre os profissionais envolvidos, onde atualizamos condutas de acordo com a resposta do tratamento e a evolução do quadro.
Paciente bem assistido é paciente acompanhado de perto.
O acompanhamento conjunto reduz riscos e potencializa resultados. Mais do que tratar o tumor, tratamos a pessoa como um todo.
Condutas em situações de urgência
Em situações emergenciais, como sangramentos, perfurações, obstruções ou compressões tumorais, a tomada de decisão precisa ser rápida. Tenho aprendido que, nesses momentos, experiência, agilidade e trabalho em equipe fazem diferença real na sobrevida do paciente.
O desafio está em equilibrar a necessidade de intervenção imediata com a manutenção da qualidade de vida. Cada caso pede uma análise rápida, mas embasada em conhecimento e prática. E, mesmo sob pressão, sigo valorizando a participação da família nas decisões.
Considerações finais
O que faz a diferença no trabalho do cirurgião oncológico, na minha opinião, é manter o olhar atento para o todo: diagnóstico, tratamento, seguimento e escuta ativa em todas as fases. Acompanhar de perto, inovar sem perder o toque humano e buscar sempre apoio científico são atitudes que procuro cultivar.
Cuidar do paciente com câncer é um compromisso que se renova todos os dias.