Representação detalhada de células cancerígenas dormentes interagindo com células do sistema imune no pulmão humano
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Imagine viver anos com exames normais após enfrentar um câncer. Alívio. Depois, de repente, o diagnóstico de metástase aparece. Como isso é possível? A ciência tem buscado respostas, e talvez a explicação esteja em células cancerígenas que, mesmo após o tratamento, permanecem escondidas e adormecidas no corpo durante meses, anos ou até décadas.

O mistério do retorno do câncer

Desde meados do século passado, médicos observam casos em que pacientes desenvolvem recidivas e metástases muito tempo depois de considerado curados. Tudo indica que, ainda cedo no processo da doença, algumas células tumorais saem do tumor original, viajam pela corrente sanguínea e se alojam em outros órgãos, mas não começam a crescer imediatamente. Elas entram em uma espécie de sono profundo, quase invisíveis até para métodos diagnósticos modernos.

Esse fenômeno, chamado de dormência tumoral, intriga a medicina e gera dúvidas importantes. Por que, afinal, essas células adormecem? O que faz com que despertem, às vezes após décadas de silêncio?

Representação de células dormentes no tecido humano Segundo Patricia S. Steeg, pesquisadora dedicada ao tema, não há uma resposta única. Cada paciente, tipo de tumor e contexto biológico parecem influenciar o comportamento dessas células dormentes (The force awakens: metastatic dormant cancer cells). Muitos avanços recentes vêm revelando o quão complexo é esse “esconde-esconde”, especialmente pelo modo como as próprias células se mantêm protegidas e “desaparecem” dos nossos radares.

O que são células dormentes?

Células dormentes cancerígenas são aquelas que, após escapar do tumor original, se abrigam em tecidos como pulmão, fígado ou medula óssea e param de se multiplicar de forma significativa. Elas permanecem vivas, mas praticamente imóveis.

  • Lentidão extrema: se dividem pouco ou nada.
  • Resistência: não respondem bem a quimioterapia ou radioterapia, que atuam principalmente em células em divisão rápida.
  • Fantasia biológica: conseguem “disfarçar” sua presença, evitando o reconhecimento pelo sistema imune (processo chamado de cloaking, como sugere Li Yang).
  • Barreira de defesa: produzem proteínas protetoras, tornando-se mais resistentes, conforme descreve Frank Cackowski.

Tal camuflagem biológica começa a ser desvendada agora, com pesquisas em modelos animais e cultura de tecidos.

O papel do microambiente

Essas células não vivem isoladas. O microambiente tumoral, todo o entorno de células normais, sistemas imunes, fibras e vasos sanguíneos, regula a dormência e o eventual “despertar” das células cancerígenas. Benjamin Izar mostrou que moléculas de RNA liberadas nesse ambiente podem ativar células até então adormecidas, usando modelos experimentais e ferramentas modernas de sequenciamento.

Mas o mecanismo não é igual para todos os cânceres. Como aponta Brunilde Gril, as rotas para dormência e ativação variam conforme o órgão onde as células se alojam e o tipo de câncer, criando mais camadas de complexidade para o tratamento.

Estudos em camundongos: pequenas respostas, grandes perguntas

O estudo dos pulmões: macrófagos atuam como “guardas”

Uma pesquisa conduzida no Albert Einstein College of Medicine, detalhada por Julio Aguirre-Ghiso, mostrou que em camundongos com câncer de mama, células do sistema imune presentes nos pulmões, chamadas macrófagos alveolares, mantêm as células malignas adormecidas ao secretar a proteína TGF-β2. Quando esses macrófagos são retirados do pulmão, as células cancerígenas despertam rapidamente, formando metástases (Estudo sobre inflamação e despertar de células dormentes).

O equilíbrio entre dormir e acordar é frágil.

No entanto, esse efeito protetor não é universal: varia conforme o estágio da doença e as características do tumor, dificultando o desenvolvimento de estratégias padronizadas.

Células natural killer: vigilância de longa data na medula óssea

Outro experimento, da Universidade de Michigan, focou em células natural killer (NK) da medula óssea de camundongos. Essas células conseguiram manter em dormência as células cancerígenas por até metade da vida dos camundongos, o que em humanos poderia equivaler a duas décadas. Os pesquisadores ainda identificaram proteínas-chave, BACH1 e SOX2, como parte do sistema de proteção dessas células.

A partir desses achados, a medicina começa a desenhar formas de prevenção e terapia voltadas especialmente ao fenômeno da dormência.

Barreiras e estratégias para combater as células dormentes

  • Eliminação direta: uma das metas é identificar formas de destruir as células dormentes de forma específica. Um caminho explorado é o medicamento experimental HC-5404, que bloqueia sinais necessários à sobrevivência dessas células. Em camundongos, impediu o surgimento de metástases, e já recebeu o selo Fast Track da FDA para acelerar pesquisas em humanos, como destacou Aguirre-Ghiso.
  • Prevenção do despertar: outra estratégia busca impedir que células dormentes sejam “ativadas”. Estudos com agonistas do caminho STING mostraram que, quando administrados em camundongos, retardaram ou reduziram o aparecimento de novas metástases, tornando as células dormentes mais suscetíveis à ação do sistema imune, de acordo com Joan Massagué. Tanto sua equipe quanto a de Max Wicha pretendem levar esses achados aos testes clínicos.
  • Terapias combinadas: novas pesquisas sugerem ações integradas, combinando imunoterapia a medicamentos que interferem no microambiente, como discutido em estudos recentes com micrometástases dormentes (direcionamento de micrometástases dormentes).

O que já sabemos, o que ainda falta

Diferentes mecanismos de dormência podem atuar em paralelo ou em sequência, dependendo do local e do tipo de tumor (estratégias para células cancerígenas dormentes). Estudos mostram que inflamações, alterações do ambiente celular, estresse ou outras agressões podem servir como “gatilhos” e despertar células cancerígenas adormecidas (influência da inflamação em células dormentes).

Apesar do avanço, os detalhes ainda são cercados de incertezas. Como destaca Steeg, manter células dormentes indefinidamente em estado de sono, sem eliminá-las, seria um marco no tratamento do câncer. Os primeiros passos já estão sendo dados, mas evitar a recorrência depende de uma compreensão profunda dessas células e das condições que as despertam (câncer colorretal e metástases dormentes).

Para os pacientes, isso significa que o acompanhamento após o tratamento, os exames e a busca por terapias inovadoras continuam essenciais. E para pesquisadores, cada detalhe descoberto representa mais uma peça deste quebra-cabeça complexo, que poderá, no futuro, transformar o modo como tratamos o câncer.

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Concluindo

As células dormentes são um dos maiores desafios da oncologia moderna. Persistem “adormecidas”, resistem a tratamentos e podem provocar o retorno do câncer muitos anos após a aparente cura. Ainda não existe uma resposta definitiva para o motivo desse fenômeno, mas a ciência tem avançado para desvendar como a dormência se estabelece, como é mantida e o que pode provocar o seu fim. Com novos estudos, terapias inovadoras começam a surgir, trazendo esperança de transformar essa ameaça silenciosa em apenas uma lembrança distante para pacientes e famílias.

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Dayara Sales Scheidt

Sobre o Autor

Dayara Sales Scheidt

Médica especialista em cirurgia oncológica, atuando no diagnóstico, tratamento cirúrgico e acompanhamento de pacientes com câncer. Seu trabalho envolve integração com equipes multidisciplinares, buscando sempre promover o melhor cuidado ao paciente em todas as fases do tratamento oncológico. Interessada em avanços médicos e novas abordagens terapêuticas, dedica-se ao contínuo aprimoramento de técnicas cirúrgicas e práticas para melhorar a qualidade de vida dos pacientes oncológicos.

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