Falar de câncer gástrico é tocar em uma das doenças que mais preocupam a saúde pública no nosso país. Eu vejo, no consultório e nos hospitais, o impacto que o diagnóstico precoce faz na vida de cada paciente. Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em 2023 espera-se mais de 21 mil novos casos desse tumor no Brasil, sendo a incidência maior entre homens com idades entre 60 e 70 anos.
A detecção precoce salva vidas.
Por isso, acho fundamental que as pessoas entendam como essa doença se desenvolve, quais sinais é preciso perceber e quais são as etapas fundamentais do tratamento e acompanhamento. Com informação, o medo dá lugar à esperança e à ação.
O que é o câncer de estômago?
Essa doença, chamada também de neoplasia gástrica, acontece quando células da parede interna do órgão passam a se multiplicar de maneira descontrolada. O adenocarcinoma é o tipo mais prevalente, correspondendo a cerca de 95% dos casos. Outras variações, como linfomas e tumores do estroma gastrointestinal, são bem menos comuns, mas também merecem atenção. Os adenocarcinomas são classificados conforme suas características ao microscópio e localização dentro do órgão.
Na minha experiência acompanhando pacientes, percebo que existe uma grande confusão sobre o real significado desse diagnóstico. Nem todo nódulo ou lesão no estômago é maligno, mas, diante de qualquer dúvida, a investigação médica é obrigatória.
Principais fatores de risco e causas
Nem sempre é possível apontar um único motivo para o desenvolvimento do tumor, mas há fatores bastante estudados:
- Infecção por Helicobacter pylori: bactéria associada à gastrite crônica e aparecimento de lesões pré-malignas.
- Dieta rica em sal, defumados e conservantes: consumo regular de embutidos, alimentos processados e baixos índices de frutas e vegetais aumentam o risco.
- Tabagismo e consumo abusivo de álcool.
- Pré-disposição genética.
- Histórico de cirurgias gástricas anteriores.
- Idade acima de 50 anos, com pico de incidência após os 60.
Vale citar que, nas regiões sul do Brasil, a incidência é significativamente maior, segundo dados do INCA.
Fatores de risco podem ser evitados com escolhas conscientes.
Sinais de alerta e sintomas mais comuns
Um dos grandes desafios é que, nas fases iniciais, o tumor geralmente não causa sintomas específicos. Por isso, muitos diagnósticos acontecem já em estágios mais avançados. Mas, quando os sinais surgem, costumo observar:
- Dor ou desconforto persistente na região superior do abdômen
- Perda de apetite
- Emagrecimento sem explicação
- Enjoos e vômitos frequentes
- Sensação recorrente de estômago cheio
- Presença de sangue nas fezes ou vômitos escuros
Ainda que esses sintomas possam estar relacionados a outras doenças, faço sempre questão de dizer: ao perceber algum desses sinais de alerta, busque avaliação médica sem demora. Para aprofundar esse tema, recomendo a leitura sobre sinais de alerta para diagnóstico cirúrgico oncológico.
O caminho do diagnóstico
Se há suspeita clínica, a investigação segue um roteiro estruturado. Em minha rotina, o primeiro passo é a endoscopia digestiva alta, capaz de permitir a visualização direta da mucosa, detectar lesões suspeitas e coletar biópsias para análise histopatológica. Nada substitui o resultado do exame anátomo-patológico para confirmação definitiva da doença.
Após a confirmação, realizo exames complementares que ajudam a definir a extensão da doença:
- Tomografia computadorizada de tórax, abdome e pelve
- Ultrassom endoscópico em situações selecionadas
- Exames laboratoriais completos, incluindo marcadores tumorais
Essas informações são indispensáveis para o estadiamento tumoral, que norteia todas as decisões terapêuticas. Saber exatamente o quanto o tumor se espalhou permite planejar o tratamento mais adequado para cada pessoa. Para compreender melhor o universo de exames, conheça mais sobre as etapas do diagnóstico oncológico.
Estadiamento e definição de estratégia
Pessoalmente, acredito que a comunicação franca sobre o estágio da doença neste momento faz toda diferença. O câncer gástrico pode ser classificado conforme o sistema TNM, levando em conta o tamanho do tumor, comprometimento linfonodal e presença de metástases.
- Estágio I: tumor restrito à camada interna do estômago, sem invasão linfonodal;
- Estágio II-III: maior comprometimento da parede, linfonodos regionais atingidos;
- Estágio IV: doença disseminada para outros órgãos.
Esse estadiamento é discutido em equipe multidisciplinar, em reuniões chamadas Tumor Boards, unindo visões da cirurgia, oncologia clínica, radioterapia, radiologia e patologia. É nessa fase que cada detalhe é decisivo na escolha do melhor caminho terapêutico.
Opções de tratamento disponíveis
O tratamento do câncer gástrico envolve, principalmente, intervenção cirúrgica, quimioterapia e, em alguns casos, radioterapia. A escolha depende do estágio do tumor, condições clínicas do paciente e localização da doença. Muitas vezes, os métodos são combinados.
A cirurgia oncológica no centro do tratamento
Em minha prática, a cirurgia é considerada a principal alternativa curativa para tumores ressecáveis, ou seja, localizados e sem disseminação a distância. Existem basicamente três tipos de cirurgia:
- Gastrectomia parcial, quando só parte do órgão é removida;
- Gastrectomia total, em casos de tumores centrais/difusos;
- Linfonodectomia, que consiste na retirada dos linfonodos próximos.
A ressecção completa do tumor, com margens livres e adequado esvaziamento linfonodal, oferece as maiores chances de controle da doença. A decisão sobre o tipo de procedimento requer avaliação caso a caso, sempre considerando a segurança.
Algo que observo cada vez mais é o uso de técnicas minimamente invasivas, como a laparoscopia ou cirurgia robótica. Essas abordagens proporcionam recuperação mais rápida e com menores taxas de complicações para muitos pacientes selecionados. Casos de doença em estágio inicial ou sem envolvimento linfonodal relevante são boas indicações.
Em situações avançadas, mas ainda sem metástase, há indicações para procedimentos citorredutores, tratamento combinado com quimioterapia e até terapias regionais como HIPEC nas chamadas carcinomatoses peritoneais.
Quimioterapia e radioterapia: para que servem?
Nos estágios mais avançados, e mesmo antes ou após a cirurgia, a quimioterapia pode ser indicada para reduzir o tamanho do tumor (neoadjuvância) ou para eliminar possíveis células remanescentes (adjuvância). O objetivo, nesse caso, é aumentar as chances de cura e melhorar a sobrevida dos pacientes.
A radioterapia, por sua vez, normalmente é reservada aos quadros em que o tumor não pode ser removido completamente ou como parte dos cuidados paliativos. Muitas vezes, os protocolos associam ambas as terapias para potencializar o efeito.
As melhores decisões surgem do trabalho em equipe.
Estou convencida de que essa integração só é possível com diálogo estruturado entre todas especialidades. Isso faz parte da rotina da oncologia moderna. Inclusive, é algo essencial para avaliação constante das necessidades e respostas individuais.
Pós-operatório e acompanhamento do paciente
Após o tratamento inicial, seja cirúrgico ou clínico, começa uma nova etapa na jornada: o acompanhamento. Este é um dos pilares para monitorar recidivas, detectar efeitos colaterais tardios e orientar a qualidade de vida. O protocolo de seguimento varia conforme estágio, método terapêutico e resposta do organismo.
Os retornos costumam incluir:
- Avaliação clínica minuciosa;
- Solicitação periódica de exames laboratoriais e de imagem;
- Discussão constante com equipe multidisciplinar;
- Orientação nutricional e suporte psicológico.
A recuperação pós-cirúrgica e o gerenciamento de complicações como fístulas, infecções ou desnutrição são pontos críticos. O cuidado não termina ao sair do hospital. Existem também protocolos específicos para acompanhamento oncológico, que buscam garantir o bem-estar físico e emocional do paciente. Para mais detalhes dessa etapa, conheça a seção sobre seguimento oncológico.
Prevenção e qualidade de vida
Eu acredito firmemente que a prevenção pode transformar trajetórias. Algumas medidas são bem claras para reduzir o risco e melhorar a saúde geral:
- Tratar corretamente infecções por Helicobacter pylori;
- Manter alimentação balanceada, rica em frutas, verduras e pobre em alimentos processados ou defumados;
- Evitar o tabagismo e o consumo exagerado de álcool;
- Realizar acompanhamento regular em caso de sintomas ou fatores de risco.
Além disso, o apoio psicológico, a reabilitação nutricional e a retomada gradual das atividades físicas fazem enorme diferença na qualidade de vida após o tratamento. Acompanhar as discussões atuais sobre novidades em oncologia pode dar esperança e empoderar pacientes em todas as fases.
Conclusão
Falar sobre câncer gástrico é, na verdade, cuidar de pessoas e histórias. Se aprendi algo em minha trajetória, é que conhecimento, apoio e estratégias personalizadas fazem toda a diferença no desfecho dos pacientes.
Buscar ajuda na presença de sintomas, adotar hábitos mais saudáveis e confiar nas equipes multidisciplinares são passos reais para vencer desafios e transformar prognósticos.
Caso queira aprimorar sua compreensão sobre diagnóstico, tratamento ou seguimento, recomendo as leituras na categoria diagnóstico, categoria tratamento, e categoria seguimento do blog.
Perguntas frequentes
O que é câncer de estômago?
O câncer de estômago é uma doença em que células da parede do órgão passam a se multiplicar de forma desordenada, formando um tumor maligno, sendo o adenocarcinoma o tipo mais comum. Ele pode comprometer diferentes regiões do estômago e se espalhar para outros órgãos, exigindo diagnóstico e tratamento especializados.
Quais são os sintomas mais comuns?
Entre os sintomas que mais observo estão dor abdominal persistente, perda de apetite, emagrecimento não intencional, sensação de estômago cheio, náuseas, vômitos e sangue nas fezes ou no vômito. Muitas vezes os sintomas são inespecíficos, por isso, a investigação médica se torna fundamental diante de qualquer suspeita.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico inclui consulta médica detalhada, realização de endoscopia digestiva alta (com biópsia para análise microscópica), além de exames de imagem como tomografia e, em alguns casos, ultrassonografia endoscópica. Todos esses exames ajudam a definir a extensão da doença e o tratamento recomendado.
Quais os principais tratamentos disponíveis?
As opções principais incluem a cirurgia para retirada do tumor e linfonodos acometidos, quimioterapia para controle local e sistêmico, e radioterapia em situações específicas. A escolha depende do estágio da doença, localização e condições do paciente, sendo cada caso discutido por equipe multidisciplinar.
Como deve ser o acompanhamento após o tratamento?
O acompanhamento engloba avaliação clínica periódica, realização de exames para monitorar recidiva, suporte nutricional e psicológico, além de orientações para prevenção de complicações e promoção do bem-estar. Esse processo costuma ser individualizado e ajustado conforme a evolução do paciente.